Tem dias que você acorda e sente que alguma coisa mudou na sua vida. Alguma coisa séria, alguma coisa importante. Você não tem mais que vestir a farda, tomar o nescau e ir pra escola. Não vai passar a manhã com sono, doido pra chegar em casa e tirar aquele ronco antes de assistir sessão da tarde comendo biscoito passatempo.
Numa certa época da vida, vagabundar deixa de ser socialmente aceitável, a menos que você seja um hippie de 32 anos que ainda mora com os pais. E a menos que seja domingo de manhã, já que no domingo de manhã você tem permissão pra ficar deitado no sofá de cuecas assistindo autoesporte enquanto sua namorada/esposa reclama histericamente pela toalha molhada, os farelos de pão e as meias sujas que você deixou no quarto. No domingo de manhã temos amparo legal pra isso. A questão é a vagabundagem nos dias úteis. E você passa a usar essa expressão – dias úteis – pra contabilizar seus dias. Antes você só pensava em dia útil pra lamentar os feriados que caíam nos fins de semana, tipo “Porra, dia de finados cai em dia útil!”
No resto da semana você tem que produzir, meu filho. Você é adulto. Você tem que se organizar, estudar, aprender, e o pior de tudo: trabalhar. Uma das coisas que diferenciam homens de meninos é a experiência traumática de acordar no primeiro dia do seu primeiro emprego e pensar: Cacete! Quero minha vida de volta!
É assustador. O impacto só é comparável ao choque de ter que mudar de estado civil no orkut, quando você pensa a mesmíssima coisa.
Esta aliás é outra diferenciação da raça humana. Tem aqueles que se curvam ao destino impiedoso da mudança de status e abandonam prontamente o “solteiro” – mesmo que seja com lágrimas nos olhos – e aqueles que utilizam toda a ginga, a malemolência, a pilantragem e a covardia que milhares de anos de evolução no deram. Você sabe como é. Gente que diz “Não, meu amor… Orkut não quer dizer nada.” ou “É só a gente deixar essa opção oculta no perfil, não quero ninguém dando conta da nossa vida.”, ou ainda “Pra quê? Eu quase nem entro no orkut, deixa pra lá…”
Mas então… Você tem que acordar cedo pra trabalhar. Ou pra estudar e depois trabalhar. E se aturar uma faculdade já é difícil, a perspectiva de sair da aula, ir pro estágio e perder o capítulo de Malhação torna as coisas ainda piores. A menos, é claro, que você faça algo como Filosofia, Biblioteconomia, Secretariado, ou Economia Doméstica. Aí dá pra levar numa boa. Mas a parcela da população que está matriculada num curso universitário sério tem que se fuder pra conciliar as coisas. Aliás, eu juro que me esforço pra imaginar um curso de Biblioteconomia. Não, sério, não ria. Estuda o quê?! Eu ainda vou me informar a respeito pra poder fazer um post elucidativo sobre isso, ah se vou.
Pois então… Lembro como se fosse ontem do meu primeiro estágio num shopping aqui de Fortaleza.
E o que você estuda, Krash? Administração? Contabilidade? Não, filho. Faço Arquitetura.
E viado é o corno do seu pai.
Mas aí é que tá… Todo mundo se admira: “E o que diabos você fazia no Shopping?” ao que eu prontamente respondo: “Trabalho no Bob’s, claro!” As pessoas inteligentes do meu cotidiano associam “shopping” a “loja” . Mas o melhor é quando eu digo que trabalho no setor de manutenção, aí vem: “Manutenção? Tipo os caras que varrem?”. Não, ser abominável. É tipo os caras que consertam as coisas e impedem que o prédio caia em cima da sua cabeça enquanto você tá ocupado gastando seu dinheiro. Mas tudo bem, normal, ninguém dá valor aos caras da manutenção. Somos tipo aqueles heróis desconhecidos cujas vidas dariam um filme. Ou melhor, éramos, meu contrato acabou e eu caí fora.
Mas eu lembro da sensação de receber o primeiro salário, saca? Tipo, gastar o próprio dinheiro sempre é péssimo, claro, mas quando eu estava enchendo a cara e pagando com a minha própria grana, dava um orgulho danado. Tipo torrar o salário inteiro com bobagem e no final puxar o cartão pra pagar a conta dá uma sensação de self-made man. Isso até eu ficar sem nenhum trocado e precisar pedir um dinheiro pra minha mãe no fim do mês.
Trabalhar em empresa grande pode ser divertido, sabe? Mentira, não pode. Uma coisa que me dava nos nervos era a quantidade de burocracia e setores que eu tinha que me reportar pra conseguir um clipe de papel extra. É um tal de fala com não sei quem do orçamento, do marketing, da gerência de pessoal, da gerência de segurança, do almoxarifado, da tecnologia de informação…
Aliás, esse era um problema especial. O setor de T.I. do shopping era composto por quatro caras. Era incrível como eles se dedicavam quase que exclusivamente a deseducar, complicar e dificultar a vida de qualquer ser vivo que necessitasse de um computador. A nossa liberdade internética se resumia basicamente ao G1, e ao site do próprio shopping. Mas eles justificavam esse estado de repressão dando o exemplo de um funcionário debilóide que acessava pornografia na hora do expediente. Prometi a mim mesmo que quando acabasse meu contrato de estágio iria apedrejar o carro do supervisor de informática, mas desisti por conta das câmeras do estacionamento.
Escrito por cdcrime
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