Então, eu tava na fila do banco dia desses. Até aí tranquilo, a mesma maravilha de sempre. Tinha uma porrada de gente na fila, dois caixas atendendo, e o clima de irritação era tão pesado que dava pra cortar com uma faca de pão.
Aliás, uma coisa que eu vou perguntar a Deus quando morrer – pressupondo que eu vou pro céu, apesar de 84% dos meus conhecidos afirmarem que não – é por que os bancos constroem mil e quinhentos guichês se eles só vão ser utilizados por, no máximo, dois caixas simultaneamente! Não, sério, tem lógica? Não, né? Mas tudo bem, não são muitas coisas nessa vida que têm lógica… Tipo, sei lá… A Hebe Camargo ou o Dunga na seleção. Enfim. O problema não é a lógica. O problema é a filhadaputice do gerente do banco que não põe gente pra trabalhar no caixa. Aí de vez em quando alguém surta e entra atirando em todo mundo no cinema, ou sai correndo nu na rua, ou urina no pára-brisa do carro do ministro da educação, e as autoridades culpam os videogames, entende?!
Preciso tomar meu remédio.
Tá, voltando.
Eu tava na fila lá. Eu tenho essa mania engraçada de atrasar as contas, de forma que elas só podem ser pagas no caixa, sabe como é? Faço isso por diversão mesmo, eu gosto de adrenalina. E nesse dia a adrenalina tava correndo solta. Tinha um casal na minha frente, os dois com uns 17 anos no máximo. Feios. Feios e chatos. Eu precisei de três minutos apenas pra sacar que eles tinham aquele namoro grudento e irritante de adolescentes. O cara tinha uma mochila jeans da Redley, saca? Toda, eu disse TODA riscada com o nome da menina – Mariana. Porra, não basta namorar uma mina feia, ainda tem que andar de mochila jeans riscada? Alôsemata. Demorei três minutos pra sacar a situação e apenas mais doze segundos pra odiar os dois. Sério. Eu fico muito irritado em filas de banco.
Então, depois de decorar todos os anúncios de previdência e capitalização pregados na parede, mostrando aquela gente bonita que eles devem achar, sei lá, na Suécia, eu comecei a olhar pro povo da fila. Menos pro casal esquisito na minha frente, eu já era inimigo dos dois a partir do momento que a Mariana tava brigando com o namorado por que ele não quis ir pra missa com ela e a mãe no domingo. Enfim, três posições na frente do casal, tinha um senhor que não me era estranho. Fiquei tentando lembrar, mas com a merda de memória que eu tenho, nada. Quando ele já tinha ido embora, e tava quase chegando a minha vez de ser atendido, lembrei quem era o velhinho: o Sujeira!
Cara, me veio todo um flashback, saca? Um negócio meio interdimensional. Por alguns segundos, eu tive 12 anos de novo, saindo da aula com os amigos pra ir lanchar no Sujeira. Sim, o Sujeira era o nome carinhoso que demos pra lanchonete em frente ao colégio. Pra lanchonete e por extensão pro dono dela, que vinha a ser o senhor da fila. Era basicamente um boteco imundo com um fliperama em anexo. Todo o dinheiro que minha mãe me dava pra “comprar lapiseira”, “tirar xerox” ou “pagar um amigo” ia parar nos bolsos sujos do fétido blusão do Seu Sujeira. Época de clássicos como The King of Fighters, Metal Slug e um jogo lá que tinha umas fotos de mulher pelada. Não lembro direito o que tinha que fazer, era tipo um puzzle. Mas lembro das fotos, ah isso eu lembro bem.
E o apelido é autoexplicativo, né? Tipo, a comida lá não era suja, digamos assim. Eu considero “comida suja” quando você encontra sujeira na comida. E lá era basicamente o oposto, você tinha comida na sujeira. Simples assim. Mas nós éramos jovens rebeldes, cheios de sonhos, sem frescuras e com o desejo de morrer na flor da idade. Praticamente a geração de James Dean, só que sem a boiolagem. E sem os pegas de carro, porque com 12 anos só se fosse de autorama.
Pois então. Lá no Sujeira era onde todas as lendas urbanas encontravam um lugar acolhedor. Relatos da menina que achou uma asa de barata na coxinha, ou da lagartixa que caiu no liqüidificador e foi bebida junto com a vitamina de mamão ganhavam os corredores do colégio toda semana, e o cenário era sempre a lanchonete do Sujeira. Se eram verdade ou não, eu nunca soube, mas que lá de vez em quando você encontrava uma ou outra coisinha preta não-identificável no sanduíche, isso era verdade. E pra você que tá aí com cara de nojo, digo que ninguém morreu por isso. Ainda. E que eu saiba.
Todo mundo sabia que o ambiente lá era absurdamente imundo. O chão era nojento, as paredes sujas de gordura, as lâmpadas queimadas e o balcão grudento de restos. Mas ninguém deixava de ir lá, era tipo um vício. Além do mais, o Seu Sujeira era legal, e passava o tempo todo contando piada. Devia ser pra compor aquele ambiente saudável ao menos psicologicamente pra moçadinha esperta. Até as meninas mais patricinhas lanchavam lá, era praticamente aquela lanchonete da Malhação. Incrível.
Diziam que os copos plásticos eram reaproveitados, que os canudos tinham gosto de barata e que crianças coreanas trabalhavam na cozinha ganhando 50 centavos por hora e dando o suor – literalmente – pra cozinhar aquelas maravilhas gastronômicas. E a “apresentação visual” da comida? O salgado de sardinha (?!) tinha forma de… Peixe! Sério! Tinha outros em formato de coração – para as garotinhas românticas -, de aviãozinho (bizarro), e tinha um lá que parecia um abacaxi, mas ninguém nunca teve coragem de provar. Tudo isso maravilhosamente acondicionado numa daquelas vitrines térmicas que não funcionava, abafada, uma verdadeira criação de fungos e outros seres nefastos. Tenho certeza de que se algum fiscal da vigilância sanitária passasse por lá, morria do coração. Mas era lá que você encontrava toda a galera depois da aula, ignorando totalmente as regras básicas de higiene alimentar e dando muito trabalho para os anticorpos.
Soube anos depois que a maioria das lanchonetes perto do colégio fechou, algumas mudaram radicalmente o ambiente inspirado na Revolução Industrial. As crianças de hoje só devem comer nas cantinas do colégio – que também não eram lá exemplos de qualidade – e aposto que elas não são nem de longe tão resistentes quanto nós éramos.
3 Julho, 2008 às 10:05 pm |
Alôsemata entrou definitivamente no meu vocabulário. E (se é que tu estudava no 7 nessa época) o Sujeira era a lanchonete que ficava do lado do “Sonho Doce”, ó só que legal.
Quanto aos namoradinhos, a raiva deve ser alguma espécie de recalque, inveja ou trauma pq qnd vc tinha 17 não tinha beijado na boca ainda. (bincadêla).
bjo, dotô!
3 Julho, 2008 às 10:09 pm |
Preciso te levar lá naquelas lanchonetes em frente ao CEFET, em especial o “Sebosão”, onde dois salgados mais um suco são R$1,70, desconsiderando qualidade dos produtos e de higiene local.
E estes templos da gordura saturada JAMAIS devem ser comparados a aquela lanchonete da Malhação, onde nunca se serve nem refrigerante e sempre tem uma rodada de suco pra galera (sucedido de um “AEEEEEE…” geral).
31 Julho, 2008 às 9:03 am |
Cara… lembra do 7 em 1… poxa muito foda… tinha tudo dentro daquele negocio, quando eu digo tudo.. é tudo mesmo. tinha salsicha, queijo, carne moida, presunto… cara muita coisa.. e o pior é que era sempre lotado.. sempre tinha moh galera na frente sentada no batente e nas cadeiras de plástico… mas krash… vc já comeu no Joel… é pertinho do egs… 2 salgados mais jarra de vitamina por 1 real… agora parece q é 1,50… mas fala sério… a lanchonete atrás do colégio chega a parecer o Marcel perto do Joel… uahuahau
13 Agosto, 2008 às 11:14 pm |
Aqui perto de casa tem o “Caga Sangue”.
Preciso comentar mais nada…
30 Agosto, 2008 às 12:56 am |
cara… eu lia o cobras…
o.O
23 Janeiro, 2009 às 6:59 am |
não sei onde é este “o sujeira”, mais sei que tinha um na rua palestina / sp que era sofisticado, era um pouco caro + tbm tinha camarão na moranga, até casquinha de siri…. 1 ves por mes a galera da empresa ia lá (se achando) rsrsrsrs… já tinhamos achado uns bichinhos na salada, macarrão azedo etc , mas até ai achamos que era 1 deslize …até que um dia chegamos lá e estava fechado (detalhe… fechado pela vigilancia sanitária rsrsrs).. ele era podre …