Crítica: Alice no País das Maravilhas

Demorou mas saiu! Tivemos alguns atrasos por conta da preguiça correria, mas finalmente aqui estamos com a crítica!

Alice in Wonderland, EUA , 2010 – 109 min. Aventura/Fantasia. 10 anos

Direção: Tim Burton

Com: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Michael Sheen, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Matt Lucas, Alan Rickman, Christopher Lee, Crispin Glover, Stephen Fry

Tim Burton fez de novo. Cores berrantes, personagens lunáticos, passagens sombrias, um universo absurdo que beira o pesadelo. O detalhe é que tudo isso já estava pronto na obra de Lewis Carroll. O diretor americano compartilha, e muito, da visão peculiar do escritor inglês, e sua obra literária mais famosa parecia casar perfeitamente com a adaptação cinematográfica.

Desde que foi anunciado, a expectativa para o longa permanceu num crescente até o fim. O que o diretor, que sempre adotou uma estética meio gótica, meio psicótica e um tanto caótica, vai nos mostrar dessa vez?

Então vieram os pôsteres e imagens promocionais, todas muito refinadas e de excelente composição. Quer dizer, dentro dos padrões esperados. Uma Alice pálida e de olheiras, uma Rainha Vermelha deformada com a cabeça descomunal, uma Rainha Branca (quem?) meio febril e de certa forma cadavérica, e Depp… Bem, excêntrico, como só ele. Uma mistura de Willy Wonka com Madonna, se você me permite dizer – mas tudo bem, estamos acostumados. Fora isso, alguns seres em CGI, que eram mais do que esperados. Se uma coisa a tecnologia  de hoje nos permite, é criar universos fantásticos com uma imersão e realismo muito maiores que antigamente, é fato. Mas a partir de onde isso passa a ser um problema? Calma, vamos por partes.

A apresentação estava dentro do esperado na visão de Burton: cores saturadas e, aqui e ali, tons mais sombrios e um leve toque de grotesco. Confesso que fiquei bastante feliz com o que vi, já que o mundo criado por Carroll não é realmente assim tão bonitinho e inofensivo como na animação da Disney, de 1951. Os coadjuvantes são maldosos e hostilizam bastante a garotinha, que parece não se dar conta da gravidade das situações e do caos que a cerca.

As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de 1865, nunca foi uma obra dentro dos padrões  estabelecidos para a literatura infantil. Ponto para Carroll, que foi imortalizado, e para nós, que ganhamos uma obra intrigante, surreal e bastante instigante de ser ler, mesmo depois de mais velhos.

Bom, Burton já tem prática em pegar uma história perturbadora por si só e dar retoques mais sinistros ou mesmo doentios, tecendo seu próprio “Burtonverse”. É só confirmar com os exemplos de A Fantástica Fábrica de Chocolates, Planeta dos Macacos e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. A este último, adicionamos a fixação com o fim do século 19 e a ambientação do período vitoriano da Inglaterra, presentes também em Sweeney Todd e A Noiva-Cadáver.

Mas então fiquei sabendo que o roteiro seguia uma adaptação de certa forma mais livre do original. Opa. Calma. Como é isso? “Uma espécie de continuação da primeira aventura, com Alice mais velha voltando ao País das Maravilhas”. Então vai ser tipo o segundo livro – “Alice Através do Espelho”? Também não. Er… Ok, vamos então meio que pular de cabeça e dar uma chance. Burton misturou conceitos dos dois livros de Carroll à uma trama própria. Personagens como a Rainha de Copas – de País das Maravilhas – e a Rainha Vermelha – de Através do Espelho – foram transformadas em um só. Mas somente os seres mais marcantes do primeiro livro dão as caras no filme.

Só uma coisa me incomodava: toda a publicidade e o hype do filme estavam sobre o personagem de Depp, e pouco sobre a protagonista. Comecei a ficar com o pé atrás, “vai ser mais um filme focado nos excessos de Johnny”.

E olha, não é tanto assim. Mas também pode-se dizer que não é muito focado em nada.

O roteiro é simples: Alice (Mia Wasikowska), então com 19 anos, é uma jovem impetuosa e de modos nada comuns às moças do fim do século 19 na Europa. Faladora e um tanto insolente, de vez em quando ela se perde em devaneios, mostrando uma falta de sintonia com o tedioso mundo vitoriano. Numa festa promovida pelo ex-sócio de seu pai, ela descobre que será pedida em casamento por um rapaz pertecente à nobreza, mas com quem não possui nenhuma afinidade.

Ela foge durante a festa e novamente se vê seguindo o coelho branco que a conduz ao País das Maravilhas. Mas Alice não se lembra mais de ter estado lá quando criança, e começa a duvidar do que é real ou sonho. Os habitantes do país, por sua vez, esperam que a garota dê um jeito de combater a maldosa Rainha de Copas – Rainha Vermelha no original – (Helena Bonham-Carter, esposa do diretor) e seu cruel Valete de Copas (Crispin Glover) e restaurar a paz. Aqui Burton inseriu uma manjada trama sobre profecias e sobre ter sempre um “escolhido” para realizar alguma tarefa árdua.

O problema não é Burton supor que conhecemos a história original, isso é até aceitável para sua maneira de contar a história, já que se trata de uma adaptação. O problema é que os personagens e a ambientação do mundo são  simplesmente jogados na nossa cara, sem desenvolvimento nenhum. Nem mesmo Alice lembrava dos estranhos indivíduos que se apresentam, mas logo tem que se acostumar e confiar nos companheiros, assim sem mais nem menos. Não se explora nada, os gêmeos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum tem pouquíssimos momentos no filme, o Gato Risonho de Chesire torna-se uma espécie de conselheiro express, abusando apenas dos efeitos especiais, a lagarta Absolem – na voz de Alan “Snape” Rickman – joga algumas frases e questionamentos supostamente sábios para a garota e só. A atenção é voltada para cima da carismática Rainha de Copas, que está bem construída para ser uma megera de contos de fada, dessas bem histéricas, e no Chapeleiro vivido por Depp. Este recebeu a missão de ser o portador da  carga dramática do filme. Em alguns momentos ele interrompe as maluquices e se perde em lembranças dolorosas e reflexões, tentando nos convencer de que no fundo sua loucura é mais sofrida que divertida. Como se precisasse. E é impossível não associar o chapeleiro ao Willy Wonka que Depp interpretou há pouco tempo. E, pior, não tem como não relacionar ambos à esquisitice peculiaridade de Michael Jackson, até dancinha estranha o Chapeleiro tem.

É notável que a Alice de Burton se mostra desde o início uma revolucionária inquieta, desde o momento em que se recusa a usar espartilho até sua aceitação em receber o fardo de salvar o País das Maravilhas. Na resolução da trama, ela veste armadura e empunha uma espada, mostrando que sua espécie de feminismo e atitude a transformam na própria Joana D’Arc.  O roteiro converge para esse momento, numa urgência mal-explicada que atropela até a apresentação da Rainha Branca (Anne Hathaway), suposta boazinha do filme mas que é tão apagada que nem dá vontade de torcer por ela. E o esperado clímax simplesmente não empolga. Pelo contrário, chega a ser constrangedora a falta de ritmo e a facilidade que tudo tem para se resolver.

Claro que o visual da produção é caprichado, exatamente como visto nas prévias. A fotografia é digna das ilustrações de um livro infantil gótico, com cenários belos e lúgubres. Alguns detalhes da primeira aventura estão lá para quem quiser notar – como as rosas falantes e a mesa do chá -, e é delicioso ver o pequeno flashback quando Alice lembra de sua primeira visita.  Os personagens  virtuais estão convincentes em suas bizarrices. Detalhe para o bonito exército de cartas da Rainha de Copas, muito bem concebido. E o 3d, bem, cumpre aquilo que a maioria das pessoas espera, que é jogar algumas coisas na sua cara. É compreensível que alguns critiquem e chamem isso de vulgar, mas eu creio que nem todo mundo tem paciência para aquele cinema 3d panorâmico, que mostra apenas profundidade nos cenários. Alice dá pra divertir nesse quesito.

E existem bons momentos, como ver a Rainha de Copas abusando de seus serviçais e exigindo um pobre porquinho para ficar mais confortável em seu assento, ou berrando feito louca “Cortem-lhe a cabeça!”. Ou quando Alice encolhe e cresce após tantos bolos e poções. O encanto ainda está lá.

Mas é  uma pena que uma obra tão densa tenha gerado um filme tão frustrante em vários aspectos. O sr. Burton deveria se ocupar mais na elaboração de seus roteiros e na escolha do que quer mostrar à platéia, e não simplesmente em tentar imprimir sua marca em histórias que já são boas e tem muito o que serem exploradas. Caso contrário, corre o risco de nos apresentar obras que são lindas por fora, mas que são tão inconsistentes quanto castelos de cartas.

Numa escala de 1 a 10, leva um 5 de copas.

4 Responses to Crítica: Alice no País das Maravilhas

  1. Cara estou esperando para assistir.
    mas só estou em dúvida se vale a pena assistir em 3D.
    meio salgado o preço de 3D para mim!

  2. Sr figueiredo disse:

    Eita Tim, será que vc acertou em alice?
    pelo ou menos esse filme parece ser mais colorido!
    hehehehhe

  3. Renata disse:

    Depois de quase quarenta minutos de filme, ainda estava me perguntando quando ia começar de verdade.
    Não empolga e não envolve em praticamente momento nenhum.

  4. Marcelo disse:

    Não consigo sair de casa para ver um filme desse naipe

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