Crítica: Fúria de Titãs

Clash of the Titans, EUA , 2010 – 106 min. Épico/Aventura. 14 anos

Direção: Louis Leterrier

Com: Sam Worthington, Ralph Fiennes, Liam Neeson, Gemma Arterton, Alexa Davalos

Mitologia Grega é sempre um assunto fascinante. Pra mim está empatado com 2ª Guerra Mundial em relevância e interesse. Por isso, nada mais normal que a minha crescente expectativa por esta produção – remake do filme homônimo de 1981.

Claro que tive que acalmar o monstro da expectativa várias vezes, a fim de evitar maiores decepções. E evitei ao máximo ler as opiniões sobre o longa lá fora, já que queria aproveitar cada detalhe como uma novidade. O problema é que  o diretor Louis Leterrier (Incrível Hulk, Carga Explosiva) esqueceu simplesmente disso: os detalhes. Ok, e das atuações também. Mas o universo do filme é tão pobre e mal ambientado que a história não decola. Não assisti a versão original do diretor Ray Harryhausen , mas ouvi que se trata de um cenário mitológico mais rico e coerente, apesar dos efeitos especiais precários da época.

Bom, a trama adapta a Mitologia Grega. Tentou-se dar mais apelo, por assim dizer, cinematográfico a um universo que já é repleto de tragédias e sagas memoráveis. Tudo bem, ninguém é obrigado a conhecer os mitos, e aposto que muitos gostarão do roteiro… Mas a título de curiosidade, vamos comparar as histórias. Me acompanhe.

Originalmente, o herói Perseu é filho de Zeus – que você sabe quem é – com Danae, humana filha de Acrísio, rei da cidade de Argos. Essa é apenas uma de dezenas de histórias sobre, digamos, o apetite voraz de Zeus para humanas. Zeus era uma espécie de cantor de pagode ou jogador de futebol do universo heleno, cheio de filhos bastardos pelo mundo.

Acontece que o rei Acrísio, tendo visitado o famoso Oráculo de Delfos – que na maioria das vezes só previa desgraças -, ficou sabendo de uma profecia em que seria destronado por seu neto. Ora, o rei não pensou duas vezes e mandou dar fim à princesa e seu filho semideus. E como foi isso? O velho sacana selou os dois numa urna e os mandou pra longe pelo mar.

Só que, como a Mitologia Grega é uma grande novela, a urna foi encontrada por um pescador na ilha de Serifo, que acolheu Danae e Perseu – ainda vivos, que surpresa. Danae se casou com o rei dessa ilha, e viu seu filho Perseu crescer forte e destemido, criado a muito leite com pêra e ovomaltino. Esse rei, chamado Polídectes, ficou com medo de que seu bravo enteado roubasse seu trono e pensou em um plano para se livrar dele. Simples: propôs um torneio em que o homem que trouxesse a cabeça de Medusa – que você também sabe quem é – seria o vencedor. Uma vez que ninguém conseguiria derrotar o monstro, Polídectes atingiria seu objetivo.

O problema é que Perseu era fodão. Então ele matou Medusa, salvou a princesa Andrômeda no caminho, virou rei e mais uma pá de coisa.

Na versão do filme, a história muda um pouco. Perseu (Sam Worthington) é filho de Zeus (Liam Neeson) com a esposa do rei Acrísio, que enfurecido pelo par de chifres que ganhou, prende os dois na tal urna. Perseu é encontrado vivo por um pescador, mas sua mãe humana não resiste. O garoto é criado pela família comum, desconhecendo sua natureza divina.

Os humanos de Argos, terra natal de Perseu e maior cidade da época, declaram guerra aos deuses (!) depois de séculos de maus-tratos e indiferença. O problema é que os deuses olímpicos precisam das preces e da adoração dos mortais para nutrirem seus poderes, e isso faz com que decidam castigar os humanos mais ainda, a fim de obter seu arrependimento e amor de volta. Essa tática é sugestão de Hades (Ralph Fiennes) – senhor do mundo subterrâneo – que como descobrimos no início do filme, é profundamente ressentido com seu irmão Zeus por ter sido condenado a reinar no submundo, entre trevas e sofrimento. Dessa maneira, ele considera não só o irmão como inimigo, mas também a raça humana, a qual deseja condenar e governar pelo medo.

O problema é esse maniqueísmo imposto pelos blockbusters americanos. Em nenhuma história mitológica Hades é descrito como um ser maléfico, inimigo dos homens. Hades não tem semelhanças com o diabo cristão, como muitos pensam. Ele apenas governava o mundo dos mortos, para onde todos iam no fim da vida. Mas os gênios de Hollywood acham que o público não se empolga com uma história que não trate de bem vs. mal, e se alguém tem que passar para o lado negro, que seja Hades.

Pois bem, os reis de Argos ofendem os deuses, que amaldiçoam sua cidade. Se sua filha Andrômeda (Alexa Davalos) não for dada em sacrifício, o terrível monstro Kraken – criado por Hades – destruirá a todos. Nesse meio tempo, Hades encontra um jeito de matar a família adotiva de Perseu, que estava no lugar errado na hora errada. Buscando vingança, o herói parte para destruir Hades e seu monstro, e de quebra salvar a cidade e a princesa. Pra isso ele conta com a companhia dos guerreiros de Argos, e da misteriosa e bonitinha Io (Gemma Arterton), uma humana amaldiçoada pelos deuses a viver para sempre. Io é uma espécie de conselheira de Perseu, aparecendo e desaparecendo de vez em quando e acompanhando a comitiva no caminho do submundo.

Sim, por que Perseu descobre que a única coisa capaz de deter o Kraken é o poder de Medusa, e para isso ele precisa derrotá-la. Até que enfim temos de volta alguma coerência mitológica.

Como disse lá em cima, a adaptação da história não estraga a diversão do público. É um filme épico, então temos guerreiros destemidos, reinos, batalhas bem coreografadas e efeitos especiais satisfatórios. Os monstros que surgem, como os escorpiões gigantes e o Kraken são interessantes e geram momentos dignos no filme. A personagem Medusa, gerada inteiramente por computação está bem concebida e convincente, e para aqueles familiarizados com o game God of War, traz uma lembrança das górgonas da série.

A brevíssima introdução do filme inova ao mostrar uma bela visão da história dos titãs e dos deuses olímpicos, contada a partir das constelações e galáxias no espaço. Achei um artifício bastante válido, já que contextualiza as relações entre as divindades com a criação do homem de uma maneira que exalta a imponência e todo o poder dos deuses. As escolhas visuais são acertadas em grande parte do longa.

A ambientação do Monte Olimpo também é bastante competente, mostrando os deuses sentados em seus tronos enquanto contemplam o mundo dos mortais – prestem atenção no chão do salão. Mas o longa peca em dar ênfase apenas nas figuras de Zeus e Hades, relegando os demais a meras figurações. É possível distinguir alguns deuses, mas com exceção de Poseidon – que fala uma frase – nenhum contribui em nada para a história. Nem mesmo Athena, que tem participação importante na versão original do filme, nos é apresentada. O espaço olímpico é todo de Liam Neeson e Ralph Fiennes, ambos ótimos atores, mas que visivelmente não estão à vontade nos papéis para darem o melhor de si. O Hades de Fiennes é apenas um deus vingativo que cria um plano meio infantil para tomar o poder do Olimpo, sem nenhum momento propriamente seu que nos faça admirá-lo como vilão. Senti falta daquele Hades da Disney, no desenho de 19xx, lembram? Aquele com o fogo azul no lugar do cabelo. Tinha muito mais presença de espírito.

Já o Zeus de Neeson é bastante imponente  com sua armadura prateada ofuscante, mas assim como o irmão não nos mostra a que veio. É a figura de um deus insosso, apenas preocupado em perder o amor e o respeito dos homens, e que não apresenta nenhum traço do impetuoso rei dos deuses que nos acostumamos a ver. Não representa uma figura paterna e quase onipotente, como deveria.

A escolha do figurino dos deuses foi bastante acertada, e ao invés de termos um bando de senhores e senhoras de toga, todos vestem vistosas armaduras de combate. O resultado é tão interessante que é quase  impossível não imaginar aquelas armaduras em um filme live action dos Cavaleiros do Zodíaco. Sério, reparem nisso. O problema é que o deslumbre é apenas visual. Imagino que seria fantástico ter uma maior participação dos deuses naquele cenário e com aquela concepção.

Sobre o bando de guerreiros que empreende a aventura, não há muito o que se falar. Sério. O próprio Perseu de Worthington é um herói hesitante. Ele se recusa a admitir sua natureza divina e tirar proveito dela, a fim de não se igualar aos deuses que tanto ignoram os homens. O problema é que não lhe resta nenhum carisma como humano, e Worthington passa o filme fazendo caras e bocas de dúvida e reflexão. A intenção era mostrar um homem que foi criado como pescador, e desconhece totalmente as extensões de seu poder e capacidade, por isso recusa ao chamado da luta. Esse traço hesitante, que deveria se concentrar no começo da trama, acaba se arrastando por ela e mostrando um herói meramente despreparado.

Os demais companheiros não tem a menor expressão. Com exceção de Draco (Mads Mikkelsen), comandante da tropa de Argos que faz o gênero “militar durão escroto que se mostra útil e decente”, os guerreiros não tem nada a contribuir. Acho até que bons elementos foram disperdiçados, como os dois cidadãos com cara de alívio cômico se candidatam para ajudar na aventura, mas que não são devidamente aproveitados para a narrativa.

A princesa Andrômeda também não provoca empatia nenhuma. Suas aparições são tão absurdamente sem impacto que em determinado momento do filme chegamos à conclusão de que seria realmente melhor sacrificá-la e evitar todo aquele tumulto. A impressão que me deu foi a de que Leterrier tinha tantos elementos para administrar no roteiro, que Perseu ficou sem foco. Afinal pelo que ele luta? Pela vingança da família? Para salvar a mocinha em perigo? Pelos dois é que não é.

Enfim, seria um filme memorável se Leterrier tivesse lapidado melhor seu elenco e não se preocupado apenas com Worthington. O desenvolvimento do roteiro e a falta de carisma nos personagens secundários deixa a história sem consistência, o que faz com que Fúria de Titãs se apoie apenas nos efeitos especiais e no 3d estereoscópico adaptado. Aliás, nem se dê ao trabalho, assista em 2d mesmo.

Se você quiser mesmo se divertir com mitologia adaptada e um herói mais marcante, descole um Playstation e vá curtir algum jogo da série God of War. Kratos é muito mais épico.

Há! E ainda sobre a saga mitológica de Perseu... Sabem aquela previsão sobre o rei Acrísio ser derrotado por seu neto? Então, ela se cumpriu. Anos mais tarde Perseu matou seu avô durante uma competição esportiva, ao participar da prova de lançamento de discos. O semideus nem sabia que Acrísio estava presente, mas arremessou o disco de maneira errada e o acertou. O destino é implacável.

Cena do Crime recomenda assistir sem grandes expectativas.

5 Responses to Crítica: Fúria de Titãs

  1. Marcelo disse:

    Assisti o de 1981, agora esse 3D poxa, fiquei curioso.

  2. Nuele disse:

    Nossa, uma decepção esse filme (especialmente para o seu bolso).
    Concordo totalmente com isso:

    “Se você quiser mesmo se divertir com mitologia adaptada e um herói mais marcante, descole um Playstation e vá curtir algum jogo da série God of War. Kratos é muito mais épico.”

  3. Dyego disse:

    Tem um grafico bom, uma historia que deixo a desejar mais é um filme assistivel !!! Não é tam ruim assim tambem não !!!

  4. Pedro Jorge disse:

    Pessoalmente, achei muito fraco esse filme. Fiz grandes espectativas e no final me decepcionei.

    Na minha opnião, dinheiro jogado fora.

  5. Pingback: Veja Anthony Hopkins como Odin no filme do Thor « Cena do Crime

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